Lagoa da Pampulha vira ‘lixão-postal’ de BH.

Uma das imagens símbolo de BH, represa recebe toda sorte de restos e até peças de carros e motos. Substâncias como óleos e graxas também podem prejudicar projetos de despoluição.

Encarregados da limpeza já não se surpreendem com a diversidade da sujeira na orla

“Não adianta só canalizar os esgotos, como o poder público planeja fazer. Os óleos e graxas, por exemplo, descem dos bota-foras, dos postos de combustíveis e dos veículos que circulam. São tão nocivos quanto o esgoto. São tóxicos. E ainda ajudam na proliferação de algas que bloqueiam a luz e a produção de oxigênio na água”, afirma o biólogo Ricardo Motta Pinto Coelho, coordenador do Laboratório de Gestão Ambiental de Reservatórios (LGAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Amontoados nas margens, mangueiras de veículos, portas, escapamentos, correias, embalagens de lubrificantes, desengripantes, aditivos e combustíveis são responsáveis por desprender quantidades muito altas de óleos e graxas na água de um dos cartões-postais mais importantes e conhecidos da capital mineira. De acordo com o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), águas doces usadas para transporte náutico, no nível planejado para a Pampulha na Copa do Mundo de 2014, não podem apresentar qualquer quantidade de óleos ou graxas.

Estudos inéditos mostram que os produtos viscosos se encontram flutuando na superfície em concentrações altas, de até 12 miligramas por litro d’água. Órgãos de meio ambiente calculam que uma gota de óleo (1 mg) torna 1.000 litros de água impuros. Os dados constam do Atlas da Qualidade da Água do Reservatório da Pampulha, publicação do LGAR a que o Estado de Minas teve acesso em primeira mão, e que será publicado no início do ano que vem.

Ao mesmo tempo em que a Copa do Mundo de 2014 fez a Copasa e as prefeituras de Belo Horizonte e de Contagem declararem estar mobilizadas para despoluir a Lagoa da Pampulha, o adensamento populacional que a região experimenta justamente por causa da valorização trazida pelo Mundial também ameaça inviabilizar essa tarefa.

Mesmo sem a aprovação da verticalização da orla na Câmara Municipal, especialistas afirmam que o aumento de tráfego na região e a construção de mais moradias são ameaças a um programa duradouro. Esse tráfego favorece o despejo de mais óleos e graxas para o reservatório. “O adensamento populacional traz excesso de tráfego e resíduos de óleo, graxa, resinas de escapamento, lonas de freio. Tudo levado pela chuva para a rede de drenagem que desemboca no reservatório. Além disso, os empreendimentos de alto luxo trazem atividades nocivas, como lavagem de pátios, estacionamentos e água de piscina”, alerta Ricardo Coelho.

Dúvidas

“A cidade está crescendo e aqui na Pampulha também vemos isso refletido no trânsito mais intenso de veículos”, atesta a presidente da associação dos moradores dos bairros São Luís e São José, Juliana Renault Vaz. “A prefeitura e a Copasa não procuraram os moradores. Por isso, não sabemos se haverá obras e a quem atenderão. A gente fica na dúvida se vai acabar tudo até a Copa, se serão maquiagens”, reclama Juliana. Como ela, várias pessoas que frequentam a orla duvidam da eficiência das obras. “Isso daqui é sujo demais da conta. Ninguém aguenta essa catinga. Não vão limpar tanto lixo até a Copa”, questiona o pedreiro João Gavião, de 54 anos. “Boniteza com sujeira não combina. Tinha de limpar, mas acho que vai voltar a ficar do mesmo jeito depois da Copa”, suspeita o operador de produção Adílson Manoel de Oliveira, de 34.

De acordo com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente, o monitoramento da qualidade das águas da Lagoa da Pampulha está sendo feito e até o fim do ano um relatório será divulgado. Ontem, o governo de Minas assinou, por intermédio da Copasa, contrato de R$ 102 milhões para impedir que esgotos cheguem aos córregos que abastecem a lagoa. A PBH pretende licitar seu projeto de despoluição no ano que vem.

Sujeira no dia a dia

O esgoto que cai diariamente nos córregos que abastecem a Lagoa da Pampulha, depositando anualmente mais de 54 toneladas de dejetos; os sedimentos que aterraram mais de 20% da lagoa; as algas que proliferam e encobrem a luz solar, vitimando peixes e extinguindo microorganismos. São várias facetas da grave contaminação que há décadas mancha um dos mais importantes símbolos da capital mineira. Desde domingo o Estado de Minas vem mostrando problemas desde as nascentes que abastecem a Pampulha aos programas que visam limpá-la antes da Copa do Mundo de 2014. Uma tarefa dura e custosa, de mais de R$ 200 milhões, e que muitos ainda não acreditam ser duradoura.

TRÊS PERGUNTAS PARA…

RICARDO MOTTA PINTO COELHO, Coordenador do laboratório de gestão ambiental de reservatórios da UFMG

Desde quando os caramujos transmissores de esquistossomose e os aguapés eram os problemas mais visíveis da lagoa, há 23 anos, o biólogo Ricardo Motta Pinto Coelho já revirava suas margens levantando grande parte das informações que hoje se tem sobre a Pampulha. Agora, como coordenador do Atlas da Qualidade da Água do Reservatório da Pampulha, a ser lançado no ano que vem, ele alerta para a necessidade de ações em vários setores para que não haja desperdício de dinheiro e as ações sejam duradouras.

1) O senhor acredita que a despoluição da Lagoa da Pampulha possa mesmo ser concluída até a Copa de 2014?

Sim, isso é possível. Fizemos experimentos em laboratório simulando ações de despoluição e é incrível a rapidez de resposta do ecossistema quando se remove o fósforo que entra por meio do esgoto. Agora, isso só será possível se a Copasa realmente desviar o esgoto doméstico para a estação de tratamento. Se tratar a água dos afluentes da Pampulha e devolver o esgoto para a lagoa, o fósforo volta e as algas crescem ainda mais.

2) O senhor vem dizendo que mais ações precisam ser feitas além das que a Copasa e as prefeituras de BH e de Contagem pretendem adotar. Quais seriam?

Não adianta as prefeituras e a Copasa tirarem o esgoto, tratarem a água, se não houver educação ambiental para que as pessoas tenham consciência e preservem. Mais empreendimentos habitacionais virão com o crescimento da cidade. É preciso ficar atento para o potencial poluidor, o lançamento de esgotos e o tráfego intenso de veículos.

3) São todas ações caras?

Nem todas. Há iniciativas baratas. Por exemplo, as tilápias são peixes que precisam ser controlados, pois revolvem o fundo da lagoa e espalham sedimentos e material poluído. São tão nocivos quanto alguns lançamentos de material contaminante. No entanto, enquanto a purificação de água por ozônio custa R$ 15 milhões, liberar a pesca da tilápia e outras iniciativas não chegam a consumir R$ 1 milhão.

Fonte: Estado de Minas

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O Somos Pampulha é uma organização não-governamental que tem o objetivo de Resgatar e preservar a vida na bacia da lagoa da pampulha.

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